segunda-feira, 2 de março de 2009

L'Atalante / Jean Vigo / 1934


“Jean Vigo afirmou-se, muito jovem, como um dos grandes poetas da sétima arte: o Rimbaud do écran” afirma Claude Beylie porventura corroborado por François Truffaut que após ter assistido L’atalante com 14 anos de idade considerou-o um dos dez melhores filmes de sempre. Grandemente apreciado pelos autores da Nouvelle Vague, o trabalho de Jean Vigo não se inscreve propriamente num movimento específico, caracterizando-se por ser uma mescla entre o cinema documental com laivos surrealistas, poucos mas notáveis cortes que se tornariam muito populares com a Nova Vaga e, ainda, compactuante com o Impressionismo Francês, uma crueza e brutalidade grotescas na forma como encara o quotidiano elevadas ao poético e à majestosa simplicidade.
“A obra de Jean Vigo é compreendida numa transição entre a Vanguarda Francesa e o Realismo Poético, entre o cinema mudo e o cinema sonoro. Vigo vive em Paris nos anos 20, na época de ouro do surrealismo, mas não se vê directamente influenciado pelo manifesto de André Breton. Identifica-se com a proposta de Un Chien Andalou (1929) e de uma maneira indirecta e mais pessoal do que artística é inspirado pelos ideais, tomados pelos surrealistas, de liberdade, de anti-autoritarismo e de repúdio ao academicismo.”1
O autor falece com apenas 29 anos de idade, deixando apenas quatro obras e a montagem da última por concluir, devido a complicações de uma tuberculose. A morte do seu pai, um militante anarquista, em circunstância misteriosas, pesa no trabalho de Vigo, nomeadamente em Zéro de Conduit (1933), banido pelo Regime e cujas reminiscências são claras em Les Quatre Cents Coups (1959) de Truffaut e em À propos de Nice (1930), uma curta-metragem muda que estuda a iniquidade social da época naquela cidade.
“Jean Vigo é o primeiro mártir do cinema. E como mártir foi devidamente negligenciado pelos críticos e pelos cineastas de sua época. Vigo realizou os seus filmes num estilo intensamente pessoal e original. O cinema breve de Vigo não nos satisfez por completo, mas faz-nos pensar toda a magnitude de um cineasta social, lírico e verdadeiro numa passagem tão efémera pela vida e pelo cinema. A sua actuação na produção cinematográfica francesa é curta e conturbada, mas deu um novo sentido à linguagem técnica do cinema. Vigo lança num tipo de cinema muito autoral, e utiliza a linguagem cinematográfica para produzir a sua crítica social.
Jean Vigo tratava a realidade directamente nos seus meios, sem artifícios ou ornamentos. Ele propõe como manifesto um cinema social. E para isso é preciso ver com outros olhos, formar uma nova percepção da realidade concreta. A realidade crua, sem efeitos, sem artifícios oníricos. Talvez a sociedade francesa dos anos 30 não estivesse preparada para ganhar novos olhos. A cegueira parcial e o onírico parecem mais atraentes diante do concreto inexorável do mundo.”2
L’Atalante conta uma história de amor, o casamento de Jean, um barqueiro, e Juliette, uma camponesa, que dividem a sua lua-de-mel com “père Jules”, o seu sem número de gatos e extravagantes velharias e o seu jovem assistente, num espaço exíguo, uma embarcação de nome homónimo ao da obra. “Vigo faz emergir um mundo repleto de símbolos e fantasias, de felizes coincidências e de estranhos milagres do dia-a-dia. Do olhar de Vigo surgem o real e o alegórico, o belo e o grotesco, que coexistem naturalmente, assentes sob uma série de imagens enigmáticas, descontínuas e líricas. Aqui, o banal dá lugar a uma pulsante teia de imaginações.”3
Chegados a Paris, destino de sonho de Juliette, esta deixa-se seduzir por um vendedor ambulante e já desiludida com a vida conjugal e encantada com a Cidade das Luzes foge. Jean, num acto de despeito desatraca e prossegue o seu trajecto, orgulho que em nada lhe alivia a dor, de modo que, ao assistir ao panorama Jules “uma espécie de fada-madrinha burlesca”4 enceta uma busca pelo amor de Jean, pela “patroa”.
Cabe ainda notar que a obra é também uma denúncia ao Regime da época, no que sobretudo respeita ao desemprego e à pobreza das mentalidades, no entanto, com um lirismo subjacente pouco comum a toda a história do cinema.
Tudo se encontra em perfeita sintonia nesta afirmação de puro vanguardismo, a química e o erotismo do casal Dasté/Parlo , a decoração tão simples quanto claustrofóbica, o ritma da concertina de Jules, a música de Maurice Jaubert e a cinematografia de Boris Kaufman, irmão de Dziga Vertov, o grande cineasta do Kino-Pravda russo ou o marco do cinema documental, que trabalhou com Vigo lado a lado nas suas obras e que foi reconhecido pela Academia norte-americana em 1955 pela colaboração com Elia Kazan em On The Waterfront (1954).

1/2 Natasja Berzoini
3/4 Paula Belchior in “Cinética”

Sofia Lemos

1 comentário:

  1. Esta apresentação a este filme inguiçado (o realizador não o acabou e nós não logramos visualiza-lo) despertou-me, e de que maneira, o bicho... aproveito para perguntar se irão tentar o destino marcando nova data de exibição ou é melhor tentar arranjar um modo menos arriscado de vê-lo?
    Um abraço e um muito obrigado pelo que deram ao longo dos ultimos tempo.
    heliofaus@hotmail.com

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