D’O Consultório do Dr. Caligari poder-se-á retirar a impressão de toda esta estética que bebe do conto do fantástico, do horror e da fantasia, nomeadamente de E.T.A. Hoffmann, um dos mais influentes autores do movimento romântico. A obra de Wiene, primeiramente entregue à direcção de Fritz Lang que abandona o projecto, honra, em conjunto com Nosferatu, de Friedrich Murnau, o movimento de vanguarda alemão que culmina, em simultâneo com o neo-realismo italiano e a nouvelle vague francesa, num dos mais importantes movimentos cinematográficos da História.
A manifestação visual é, assim, um dos aspectos mais privilegiados fazendo-se o uso exagerado de cenários de papel onde se pintavam sombras de modo a fazer um contraponto intimidante entre luz e trevas. Para exemplificar confronto interior, empregavam espelhos – uso bastante popular no cinema noir e em autores como Hitchcock e Wells, enquanto que o tom fantástico era enfatizado pelos cenários distorcidos que diminuíam o discernimento entre realidade e sonho. A caracterização sombria das personagens apela também ao distante e ao fantasmagórico, o exagero na representação dos actores, típico do cinema mudo, que sem recorrer à palavra exprime as emoções dos personagens e, os figurinos, pretos e desarrumados, contribuem para a ideia de confusão entre realidade e sonho, sendo excelentes exemplos, o sobretudo do Dr. Caligari que atrai de imediato a atenção e distingue-o dos demais e as vestes brancas de Jane que alimentam a pureza da personagem. Por fim, a banda sonora é, sem sombra de dúvidas, um dos pontos altos do filme, que consegue um acompanhamento exímio de toda a acção e nos momentos de maior tensão contribui para enregelar ainda mais o ambiente.
No entanto, a película é mais do que um subterfúgio artístico, como afirma Siegfried Kracauer, em “De Caligari a Hitler: a história psicológica do cinema alemão”, que à semelhança de Das Testament des Dr. Mabuse (1933), de Frtiz Lang, é uma premonição de Hitler e da sede do poder e morte. A História abre caminho a diversas interpretações quase todas elas voltadas para o contexto social da época. Metropolis (1927), também de Fritz Lang, por exemplo, culmina numa extensa tese política sobre a tensão social nas questões trabalhistas, de modo que em Caligari, embora criação duma época de fuga à realidade, se possam encontrar analogias entre o povo alemão e Cesare um mero serviçal mais defunto do que vivo, uma marioneta nas mão de quem lhe é hierarquicamente superior. A Alemanha sentia-se humilhada pela derrota na I Grande Guerra e pelas condições impostas pelo Tratado de Versalhes além de estar imersa numa crise que a República de Weimer não conseguia travar. Assim, das trevas permanentes e da realidade distorcida semelhante a um pesadelo, se compreende o espírito alemão da época.
Aproximando-se de um século de existência, esta obra não deixa de ser um clássico entre clássicos e uma das obras-primas do cinema alemão. Pela atmosfera que gera, pela direcção que complementa um guião extremamente bem construído e rico em twists e complexidade, o filme mantém uma tamanha originalidade, sofisticação e plasticidade que na ausência de recursos técnicos actualmente tão triviais como som e cor deve ser admirada em toda a sua dimensão.
Sofia Lemos

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